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Blended Finance e Equidade de Gênero

  • Writer: Sergio Marcondes
    Sergio Marcondes
  • Jun 8
  • 3 min read

Artigo: Blended Finance como Estratégia para Reduzir as Disparidades de Gênero no Acesso a Capital — Liane Freire e Sergio Marcondes

Introdução

As disparidades financeiras de gênero – conhecidas como Gender Financing Gap – são um dos principais entraves à autonomia econômica das mulheres e à construção de uma economia mais inclusiva. No Brasil e no mundo, mulheres enfrentam barreiras estruturais que limitam seu acesso a crédito, investimento e outros instrumentos financeiros, restringindo sua capacidade de empreender, acumular patrimônio e participar plenamente da economia formal. Diante desse cenário, o Blended Finance surge como estratégia inovadora para mitigar essa desigualdade, combinando diferentes fontes de capital – comercial, concessional e filantrópico – para viabilizar crédito e investimentos em negócios liderados por mulheres e reduzir o risco percebido pelos investidores.

O Gender Financing Gap e suas dimensões

A Gender Financing Gap pode ser entendida a partir de quatro dimensões interligadas: disparidade de renda, desigualdade na acumulação de patrimônio, sub-representação em posições de poder e acesso limitado ao capital. Globalmente, a diferença salarial gira em torno de 23% (OIT); no Brasil, homens recebem em média 27% a mais que mulheres, com disparidades ainda maiores para mulheres negras. Em muitos países, menos de 20% das mulheres possuem terras e elas detêm, em média, 40% menos em economias e investimentos — e a posse de bens é essencial para obter crédito. Na representatividade, ocupam apenas 28,5% das posições de alta gestão e 24,9% das cadeiras parlamentares.

O acesso ao capital como estratégia-chave

No Brasil, mulheres empreendem mais por necessidade do que por oportunidade e enfrentam maiores dificuldades de crédito. Em 2022, apenas 33% do crédito a micro e pequenas empresas foi direcionado a negócios liderados por mulheres, e os juros médios para empreendedoras foram 3% superiores aos dos homens. Como acumulam menos patrimônio, têm menor capacidade de oferecer garantias, o que as torna menos atrativas para instituições financeiras tradicionais — perpetuando a exclusão econômica.

O viés de gênero no crédito

As dificuldades decorrem tanto de fatores subjetivos – viés inconsciente e estereótipos – quanto de barreiras estruturais. Instituições financeiras frequentemente percebem negócios liderados por mulheres como mais arriscados, ainda que a inadimplência feminina possa ser menor. Menos patrimônio leva a menos acesso a crédito, que reduz oportunidades de crescimento, num ciclo vicioso.

Blended Finance como solução estruturante

Soluções de Blended Finance são essenciais para suprir o incremento de risco percebido, atraindo capital comercial para operações que, ao longo do tempo, confirmam suas premissas econômicas e desconstroem o paradigma de risco elevado para mulheres. Entre as abordagens possíveis:

• Composição de investimentos em séries, com classes de investidores assumindo níveis distintos de retorno e risco.

• Soluções de garantia, que reduzem o risco financeiro e mobilizam capital privado de forma mais eficiente.

• Assistência técnica, com recursos para fomentar o ecossistema e criar condições estruturantes.

Aspectos estratégicos para eficiência

No crédito para mulheres no Brasil, o desafio não reside no retorno (os juros locais são elevados), mas em três aspectos: (1) ampliar o acesso a tomadoras com garantias insuficientes, via garantias colaterais e cobertura de risco parcial; (2) reduzir o risco percebido de inadimplência, com coberturas temporárias e assistência técnica; (3) reduzir os custos de captação de clientes, formando um pipeline robusto de tomadoras. As abordagens mais assertivas usam instrumentos customizados que maximizam o de-risking com a menor participação possível de recursos concessionais.

Conclusão

A desigualdade de gênero no acesso a capital é uma questão de justiça social e um vetor de crescimento econômico sustentável. Modelos como o Blended Finance têm o potencial de transformar essa realidade, canalizando capital para mulheres e promovendo mudanças estruturais. É fundamental agir com velocidade e escala, viabilizando acesso imediato ao capital e criando as bases para uma transformação estrutural contínua.



 
 
 

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